
Por Vasco Semedo In Revista Veritas Liberat
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A ideia de consenso é frequentemente invocada em democracias como princípio de estabilidade, moderação e garantia de convivência plural. No entanto, quando associada à legitimação de uma ortodoxia ideológica dentro da janela de Overton — isto é, o espectro de opiniões socialmente aceitáveis — o consenso transforma-se num dispositivo disciplinador. Não se trata de um acordo tácito entre posições divergentes, mas da delimitação das fronteiras do permitido. A dissidência, sobretudo quando questiona os pressupostos dominantes sobre identidade, imigração, segurança ou cultura política, é frequentemente recodificada como ameaça à coesão social, extremismo ou risco democrático. Assim, o pluralismo formal convive com mecanismos de exclusão simbólica e material que procuram policiar a linguagem e restringir os interlocutores legítimos no espaço público.
A cultura de cancelamento, muitas vezes apresentada como fenómeno ultrapassado ou circunscrito a bolhas académicas e digitais, mantém-se ativa, ainda que com novas roupagens. A sua lógica fundamental consiste na desqualificação do emissor como estratégia para obstar ao debate de ideias, favorecendo a ortodoxia. A dissidência é tolerada apenas enquanto inócua. Quando ameaça o consenso narrativo dominante, mobilizam-se instrumentos de marginalização: denúncia pública, pressão mediática, linchamento digital, campanhas de reputação e mecanismos institucionais de exclusão. A pluralidade deixa de ser um valor quando a divergência não serve para reafirmar os limites, mas para os desafiar.
O caso de Gonçalo Sousa é um exemplo ilustrativo deste processo em duas etapas: primeiro, a fabricação mediática de um enquadramento suspeito; depois, a ativação de mecanismos de pressão pública sobre instituições com responsabilidade editorial. A 3 de outubro, o Expresso e a Sábado publicaram peças que procuram associar influencers portugueses à retórica da extrema-direita internacional, recorrendo ao exemplo de Charlie Kirk para conferir gravidade transnacional ao fenómeno. O argumento implícito é o de contágio: ideias que questionam políticas migratórias, cultura mediática ou instituições convencionais são assimiladas à lógica da radicalização e do ódio. A invocação do Centro Nacional de Cibersegurança e de denúncias formais procura oferecer um lastro institucional que legitime a suspeita. Importa notar que estas denúncias não são necessariamente fundamentadas, podendo resultar de activismo digital concertado, mas servem como indicador conveniente para sustentar a tese da ameaça.
A peça do Expresso introduz ainda afirmações sobre pretensa “lavagem cerebral” entre jovens expostos a conteúdos considerados desviantes, como se a audiência fosse composta por sujeitos passivos e vulneráveis. Esta retórica paternalista espelha a atualização de uma perspetiva típica da Nova Esquerda, em que as categorias de vítima e opressão se deslocam de classes sociais para identidades racializadas, de género ou orientação sexual. O discurso crítico sobre políticas migratórias, segurança ou soberania é assim reinterpretado não como divergência legítima, mas como ataque simbólico aos grupos protegidos. Segundo essa lógica, o problema não é a divergência política, mas o alegado perigo cultural associado ao discurso.
A segunda parte da operação surge do fragor mediático anterior. Depois da promoção pela RTP do programa “Estado da Arte”, onde Gonçalo Sousa surgia como comentador ao lado da apresentadora Alberta Marques Fernandes e colegas de painel, Joana Marques Brás e Rodrigo Moita de Deus, desencadeia-se, no próprio dia, uma petição para impedir a sua participação. A pressão digital, amplificada por figuras como Diogo Faro, e o enquadramento prévio dado pela imprensa criaram um ambiente em que a RTP recua rapidamente. A justificação invocada assenta em publicações antigas, descontextualizadas e reavivadas oportunisticamente. Trata-se da cultura do arquivo como arma: o passado é convocado não para compreender, mas para excluir. A decisão não resulta de um debate interno sobre pluralismo, mas de uma resposta temerosa a uma indignação fabricada.
Este episódio revela um paradoxo recorrente: quem proclama a diversidade como valor absoluto empenha-se em impedir a expressão de vozes que escapam ao consenso aceite. A reação de Raquel Varela mostra como muitos comentadores à esquerda entendem a presença no espaço mediático público como extensão do seu mandato ideológico. Ao afirmar que a sua saída da RTP resulta de uma viragem política favorável a partidos de direita e ao classificar o Chega como partido fascista, demonstra a naturalização da sua posição como legítima e das posições divergentes como regressivas. A liberdade de expressão, neste modelo, é garantida enquanto reforçar a hegemonia discursiva existente; quando a desafia, converte-se em ameaça ao bem comum.
O caso de João Antunes no X (Twitter) evidencia a dimensão digital deste fenómeno e a fragilidade dos mecanismos que supostamente protegem a liberdade de expressão online. Antunes, com 88 mil seguidores, publica uma crítica a Nikita Bier, Head of Product da plataforma. A resposta é removida, o autor é bloqueado e, pouco depois, a conta é suspensa com base na categoria genérica de “inauthentic behavior”. A arbitrariedade do processo revela uma assimetria de poder: quem controla os instrumentos de moderação pode converter a crítica legítima em violação das regras. A suspensão, descrita como definitiva e irrecorrível, ilustra a personalização das estruturas de decisão. Só a intervenção pública de Elon Musk permitiu a reposição da conta, após contestação e escrutínio. O episódio demonstrou como a dissidência face aos gestores da plataforma pode desencadear punições desproporcionais, sob pretensa defesa da integridade digital.
Estes casos expõem um padrão: a cultura de cancelamento não desapareceu, apenas se sofisticou. Funciona por contágio mediático, denúncia ativista e decisão institucional rápida, sem contraditório. Os criadores de conteúdos ou comentadores associados à direita são mais frequentemente alvo de cancelamento simbólico e fático do que os seus homólogos à esquerda. As secretas portuguesas, em vez de distinguir entre crítica social e incitamento real ao ódio, parecem preocupadas em proteger a narrativa oficial sobre temas sensíveis como imigração ou identidade cultural. A acusação de “extremismo” surge não como descrição factual de comportamentos violentos, mas como rótulo destinado a circunscrever o espaço legítimo do debate.
O consenso democrático, nestes casos, não se manifesta como pluralidade deliberativa, mas como imposição de um perímetro discursivo. A janela de Overton é invocada não como ferramenta analítica, mas como fronteira policial. A dissidência deixa de desempenhar um papel democrático, transformando-se em indício de radicalização. Cancelar, bloquear, suspender ou impedir a presença mediática são formas modernas de ostracismo, legitimadas por uma retórica de proteção coletiva. O que está em causa não é a eliminação do discurso extremista, mas a deslegitimação preventiva de qualquer posição que procure alternativas ao consenso estabelecido. A liberdade de expressão corre o risco de se tornar um privilégio dos conformes.
Referências
Gonçalo Sousa. “O regime apodreceu.” Isto é o Povo a Falar, 13 mar. 2025. https://www.youtube.com/watch?v=1b2cz-Q8po8
Gonçalo Sousa. “Atualidade política na Silly Season.” Isto é o Povo a Falar, 29 jul. 2025. https://www.youtube.com/watch?v=aPBvhjbEqks
Gonçalo Sousa. “Entrevista: Gonçalo Sousa, analista político.” Canal Sérgio Tavares, 16 mar. 2023. https://www.youtube.com/watch?v=CwAjOkODMpc
Gonçalo Sousa. “Gonçalo Sousa já não é militante do Chega.” Clips Tiago Paiva, 5 jan. 2025. https://www.youtube.com/shorts/pnoDJb70fjo
Gonçalo Sousa. “O CHEGA está num caminho de moderação.” Sociedade Z, 2025. https://creators.spotify.com/pod/profile/sociedadez/episodes/71-Gonalo-Sousa—O-CHEGA-est-num-caminho-de-moderao-e21tdav
“RTP volta atrás com escolha de Gonçalo Sousa para comentador.” Jornal de Notícias, 15 out. 2025. https://www.jn.pt/delas/artigo/rtp-recuou-e-reviu-escolha-de-goncalo-sousa-para-comentador-auto-intitulado-embaixador-da-masculinidade-toxica/18009086
“João Antunes no X: Suspensão de conta após crítica a Nikita Bier.” Newsweek, 15 out. 2025. https://www.newsweek.com/nikita-bier-christian-bot-comment-sparks-fury-10884084
“ANTUNES on X: @IfindRetards Expose this guy.” X (Twitter), 2025. https://x.com/AntunesHQ/status/1977834991758303487
“Thomas Penn: nikitabier’s post, which he didn’t like.” X (Twitter), 2025. https://x.com/ThomasJPenn/status/1978100449619128347