Por Vasco Semedo na Revista Veritas Liberat

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O debate em torno da imigração em massa e da proteção das fronteiras nacionais tem vindo a ganhar maior preponderância e centralidade nas democracias ocidentais. A “crise dos refugiados” levou a que cerca de 1,3 milhões de pessoas pedissem asilo na União Europeia, o maior número registado desde a Segunda Guerra Mundial.

As administrações Obama e principalmente Biden também foram responsáveis por um aumento significativo de imigrantes ilegais.
Entre 2009 e 2016 (administração Obama) os agentes da Border Patrol na fronteira sudoeste dos EUA prenderam cerca de 3,3 milhões de migrantes ilegais, representando uma média de 413.000 apreensões por ano.

Entre Fevereiro de 2021 e Janeiro de 2024 (os três primeiros anos completos da era Biden), os agentes da guarda fronteiriça apreenderam mais de 6,38 milhões de migrantes, o que representa 93% a mais do que o total das oito administrações anteriores de Barack Obama. Estima-se que no período compreendido entre o início de 2021 até Setembro de 2024, mais de 8,6 milhões de interacções com migrantes tenham ocorrido na fronteira do México com os EUA

Nos Estados Unidos, este debate conheceu uma inflexão decisiva com a ascensão de Donald J. Trump e a formulação da Agenda America First, que viria a marcar profundamente o campo político e cultural do país. A consolidação dessa visão não ficou restrita à Casa Branca: em 2021, sob a liderança de Brooke Rollins, ex-conselheira de política doméstica de Trump, foi fundado o America First Policy Institute (AFPI), um think tank dedicado a preservar, desenvolver e promover as políticas alinhadas com o trumpismo, mesmo em contexto de administração democrata.
Foi neste enquadramento que o Instituto Trezeno entrevistou Kristen Ziccarelli, investigadora do AFPI, para compreender como a instituição interpreta os desafios da imigração, a pressão sobre os serviços públicos e o papel da política America First na reconfiguração do espaço público norte-americano.

Ao contrário de muitos think thanks clássicos, cuja função é essencialmente consultiva, o AFPI atua como um elo entre a base popular conservadora e os decisores políticos, traduzindo as preocupações do eleitorado em propostas legislativas. Segundo Kristen Ziccarelli:

“A nossa agenda é apoiada por mais de 80% das pessoas e toca em todas as políticas, não apenas na imigração. Fizemos muito trabalho com o Congresso, principalmente a aprovação do HR2 – o projeto de Lei de Segurança Fronteiriça America em Primeiro Lugar”.

A questão migratória tende a ser controversa, principalmente no que diz respeito a ocultação ou omissão de dados que digam respeito a informações biométricas, nacionalidade ou criminalidade entre a população imigrante.

Por outro lado existe a questão das organizações não governamentais (ONG´s) que, sob a capa da legalidade, minam a soberania dos Estados e enfraquecem as fronteiras. Miguel Nunes Silva recordou o caso de Miguel Duarte, ativista detido em Itália por ajudar ao contrabando de pessoas no Mediterrâneo, violando as leis italianas e europeias. Este é um exemplo claro de como a narrativa política humanista serve muitas das vezes como pretexto para legitimar a subversão do próprio Estado de direito.

No caso americano, Kristen Zicacarelli destacou com as ONG’s norte-americanas, muitas das vezes financiadas pelo governo Biden, chegaram a movimentar mais de mil milhões de dólares para apoiar redes de imigração ilegal:
– Transportando migrantes pelo país;
– Subvertendo políticas federais de segurança;
– Fornecendo abrigo, comida e até transporte gratuito
– Funcionando, na prática, como parte de um esquema transnacional de tráfico humano associado aos cartéis mexicanos.

Como conclui Ziccarelli, a política de Biden falhou completamente:

“Foi a primeira administração a minar ativamente a segurança das fronteiras, criando caos e crime dentro do nosso país. Sob Biden, pelo menos 12 milhões de estrangeiros entraram ilegalmente – algo sem precedentes. ”
“Quando alguém pode ser libertado nas comunidades americanas […] e está a ser ajudado em praticamente todos os passos do caminho para se estabelecer aqui, o que é completamente inaceitável”.

Miguel Nunes Silva questionou sobre problemas/consequências a imigração em massa causou nos EUA em termos de tensões étnicas e crime.

Ziccarelli destacou a explosão do fentanil – mais de 100 mil mortes por ano por overdose, grande parte devido ao tráfico fronteiriço ligado a cartéis mexicanos, aumento da criminalidade, assassinatos perpetrados por imigrantes (casos de Bake e Riley) ou a infiltração de gangues internacionais como o Tren de Arágua, apoiado pelo regime de Maduro na Venezuela.

Todos estes fatores tiveram como efeitos objetivos um aumento significativo de insegurança nas comunidades, uma vez que os cidadãos americanos sentiram a indiferença e o abandono a que foram sujeitos pelo governo federal

Neste contexto, a agenda da administração Trump e a subsequente ação do AFPI surgem como esforços de reposicionar o papel do Estado e proteger o interesse do contribuinte. O corte no financiamento da USAID a ONG´s consideradas contrárias ao interesse nacional, a reorganização do Departamento de Estado para alinhar a ajuda externa com prioridades soberanistas, os reforços da guarda fronteiriça, promoção de políticas de deportação mais duras, associadas ao princípio “Remain in Mexico” (Migrant Protection Protocols) foram medidas tomadas no sentido de inverter décadas de complacência com fluxos migratórios irregulares.

Como explica Kristen:
“Sob Trump, os imigrantes ilegais não são libertados nas comunidades americanas, ao contrário da política Catch and Release de Biden”

Ziccarelli destaca ainda números inéditos na política migratória alcançados pela administração Trump como a diminuição das travessias ilegais em 94%, a apreensão de fentanil reduzida em mais de 70% e a inexistência de imigrantes ilegais libertados nas comunidades americanas entre maio e junho de 2025

A questão migratória não é apenas um dossiê político, mas o reflexo de uma batalha mais ampla pelo sentido do reforço da identidade nacional, pela preservação da ordem interna e pela reconfiguração de poder dentro da democracia norte-americana. A imigração em massa constitui não apenas um desafio humanitário, mas sobretudo um teste decisivo à capacidade dos Estados de defenderem o interesse nacional em tempos de instabilidade e transformação acelerada.

 

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