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No passado dia 4 de Junho a Associação Causa Pública reuniu em Lisboa para discutir a hecatombe eleitoral das eleições legislativas deste ano. A preocupação é natural visto que o Bloco de Esquerda foi reduzido a uma deputada e, juntamente com o PAN, quase que era erradicado do parlamento. O PCP continuou a sua esclerose eleitoral mas foi o PS que, e mesmo com voto útil das Esquerdas, chocou os esquerdinos ao cair para 3ª força parlamentar, pela primeira vez na 3ª República. Apenas o Livre aumentou a sua votação mas essencialmente canibalizando o eleitorado das outras Esquerdas – igual ilação com a eleição do deputado do JPP. A verdade factual é que apenas um terço dos portugueses agora vota na Esquerda.
Tudo isto era, por demais, previsível, visto a tendência no resto da Europa, desde há décadas. Em Portugal, nenhuma lição foi aprendida do definhar do PS francês, da falência do PASOK ou dos desaires do SPD alemão. O europeísmo e internacionalismo das Esquerdas parecem não valer de muito no que toca a empirismo político.
A Causa Pública junta várias personalidades da sociedade civil de Esquerda e tem como objectivo manter o PS à Esquerda e as Esquerdas unidas, pelo que a sua perspectiva é interessante na esteira das eleições deste ano.
Vamos começar por aquilo que foi dito com tino: a Vereadora Paula Marques constatou que o partido CHEGA! subiu em todas as freguesias de Lisboa com alta densidade de habitação social, o que indica que muito dos votos do CH vieram de eleitorados até agora socialistas. Acusou ainda a Esquerda de não ter sabido falar sobre imigração, o que o ex-Ministro Paulo Pedroso corroborou alegando que em vez de culpar os políticos, a população havia culpado os imigrantes. Pedroso referiu que em parte a Esquerda tinha pouco a oferecer ao eleitorado pois muitas das suas bandeiras foram implementadas e ficou esvaziada de causas. O ex-Secretário de Estado Ricardo Sá Fernandes afirmou, acertadamente, que Blair e Obama pouco fizeram para regular o mercado de derivados especulativos.
É uma matéria que o cidadão médio pouco compreenderá mas, de facto, mais poderia ter sido feito para responsabilizar as lideranças financeiras, no rescaldo da Grande Recessão e impôr limites à especulação financeira. Porém, a falência do Ocidente não se deve à especulação financeira.
Finalmente, a ex-deputada Ana Drago disse pouco de sensato mas uma sua afirmação que, com algum favor, se lhe pode validar é que “nas crises económicas sobem sempre os extremistas”. Na verdade, aquilo que sobe são as forças anti-sistema mas o paradigma da Esquerda está sempre tão marcado pela obsessão com os anos 30 que, ‘anti-sistema’ obrigatoriamente lhes orienta o raciocínio para ‘totalitarismo’.
Até aqui, nada a apontar, são afirmações com verdade e com relevância.

Passemos ao pior, a começar pelo próprio termo ‘extremismo’. A Esquerda sonha com utopias e com paraísos na Terra, o que tende a levar a Esquerda para a revolução, a subversão e o radicalismo. É a Esquerda que tenta fracturar o status quo e é a Esquerda que romantiza os métodos violentos para tal alcançar. Como tal, é a Esquerda que, normalmente, é culpada de violência e de divórcio com a realidade. As declarações que se seguem mostram isto mesmo.
O CH foi recorrentemente classificado de ‘extrema-direita’ mas ninguém concretizou tal ‘extremismo’. Paula Marques chega mesmo ao absurdo de declarar que com a elevação do CH a líder da oposição, “fascistas serão agora nomeados para funções estatais e jurídicas”, manifestando a sua preocupação com a integração da ‘extrema-direita’ em funções de Estado. Isto é, no mínimo, alucinado. Desde logo, aonde estava a sua preocupação com a nomeação de extremistas, quando eram juízes e funcionários do estado afectos ao PCP que eram nomeados? Depois, a liderança do CH vem quase toda ela do PSD e CDS e nunca o CH defendeu qualquer política extremista. A Esquerda não é forçada a gostar da ideologia do CH mas classificar o partido de ‘fascista’ é absolutamente mendaz e esquizofrénico.
Marques exemplifica o tal do extremismo com a fusão do Ministério da Cultura com o da Juventude e Desporto, uma medida que ‘à Trump’ se destina, segundo ela, à destruição da Cultura. Tal apenas poderia amedrontar quem vive à margem da realidade. Para já, o Ministério da Cultura financia, essencialmente, a RTP e a RTP pouca importância tem como fonte de cultura ou informação pois todas estas funções são desempenhadas e melhor pelo sector privado. A RTP não dá cultura ao país – quanto muito divulga-a – e o acesso à informação é hoje ubícuo e a RTP extravasa o seu mandato original desde há décadas, servindo apenas como sorvedouro de fundos públicos para clientelas esquerdistas. O mesmo se pode dizer do resto dos subsídios gastos pelo Ministério da Cultura. Se realmente o governo do PSD cortasse a eito no orçamento da Cultura, tal seria uma medida de responsabilidade institucional e de respeito pelo contribuinte.
Ana Drago concluiu que o que falhou não foram os partidos pois houve oferta tanto de moderação como de radicalismo mas que algo mais se manifestou na eleição. Segundo Drago, o que falhou foi …a comunicação. Esta é a atitude típica dos autistas e algo que eu já pude, pessoalmente, testemunhar durante o meu tempo em Bruxelas. Sempre que uma conferência, em contexto das instituições europeias, se debruçava sobre o eurocepticismo, a ênfase era sempre em como a UE melhor poderia comunicar o seu excelente trabalho e nunca se estaria a fazer demais. Em toda a semelhança, a alucinação de Drago ultrapassa qualquer contacto com a realidade quando afirma que o problema é o enviesamento mediático a favor da Direita!!!
Para quem tenha ficado confundido, eu esclareço: na mente de Drago, as Carmos Afonsos e Anas Gomes, com programas de TV e colunas de jornais, de que mais nenhum membro ou simpatizante do CH usufrui, é prova de parcialidade a favor da Direita. Os pseudo debates em que o defensor do CH – quando há um – se vê obrigado a debater, não apenas o adversário mas também o jornalista, são prova de favorecimento da Direita. As pseudo investigações sobre o submundo da extrema-direita, destinados a atacar o CH, e divulgados em véspera de eleições, são indícios de preferência pela Direita. Donald Trump sistematicamente insultado, desprezado e caricaturado, literalmente, como um macaco, por ‘publicações de Direita’ como o Expresso, é prova de que a Direita é beneficiada pelos media nacionais…
Segundo Drago, a Direita não respeita factos e é simplista, o que lhe permite dominar as redes sociais de interacção curta e memética. Na realidade …dos factos, a Direita domina as redes sociais e a internet por duas razões lógicas: primeiro porque não existem canais de divulgação de perspectivas de Direita nos media tradicionais, e segundo, porque as redes sociais são interactivas e, por conseguinte, incluem contraditório. A verdade e o acesso dão vantagem à Direita no mundo virtual, não o simplismo. Muito pelo contrário, é a Esquerda que é inerentemente simplista e demagógica: ‘se alguém é pobre, dê-se-lhe dinheiro’, ‘se existe desigualdade, uniformize-se’. Se a Esquerda tentar concorrer com a Direita nas redes sociais, o esforço redundar-se-á num falhanço pois não é por falta de acesso ao ponto de vista de Esquerda que as pessoas procuram informação na internet; para além de que a Esquerda não está habituada a ter de trocar argumentos com a Direita, isolada como está em bolhas ideológicas e tendo censurado o máximo que pode as vozes de Direita, nos media e nas instituições.
Este foi um outro soundbyte partilhado durante a conferência: a intimidação que advirá da presença da ‘extrema-direita’ e do domínio das Direitas no parlamento. Paula Marques defendeu mesmo que a Esquerda deveria ser mais polémica e que quem é moderado em política se torna insignificante. Mas se intimidação tem havido, ela tem vindo da Esquerda e não da Direita. Foi a Direita que foi saneada dos media e das universidades, que foi censurada nas redes sociais, cujos símbolos, como o crucifixo, foram purgados de toda a vida cívica. É a Esquerda que insiste em revisonismo histórico nos manuais escolares, que renomeia a toponímia, que vandaliza monumentos nacionais e pede a sua demolição. É o CH que é intimidado pela comunidade cigana, que enfrenta insultos nas ruas e ameaças de morte nas redes sociais, tudo impunemente. São os líderes de Direita próximos do CH que sofrem tentativas de assassinato (Trump, Fico, Abe), são as eleições com resultados conservadores que são subvertidas ou ignoradas (referendo ao aborto em Portugal, governo Schüssel com presença do FPÖ na Áustria, referendos ao Tratado Constitucional da UE em França e Holanda, referendo ao Tratado de Lisboa na Irlanda, discriminação e perseguição da UE ao governo Orbán na Hungria, eleição presidencial romena de 2024, etc). O momento mais totalitário e traidor à pátria viveu-se durante o PREC com influência marxista e o único grupo terrorista nacional desde 1974 era de Esquerda. Pedroso ainda tem a desfaçatez de falar em ‘mundo perigoso’ vindo do partido dos ‘donos disto tudo’ e Drago o descaramento de afirmar que o CH é parte do sistema!…
Paula Marques diz, e muito bem, que a Esquerda não soube falar para a classe trabalhadora. Mas de que tem falado Marques, ela própria, nos últimos anos? A Vereadora em funções pautou o seu mandato por sinalizar o Dia Internacional da Visibilidade Trans, apresentou e fez aprovar o seu ‘Plano Local para a Inclusão da Comunidade Cigana’, fez questão que se fizesse menção às pessoas LGBTI+ nos concursos laborais e fez aprovar o seu projeto ‘Escola antirracista, intercultural e para os direitos humanos’… A título de exemplo, durante a conferência foi divulgada uma petição. À Direita fazem-se petições para proteger as escolas da ideologia de género, Portugal da influência de políticas de Bruxelas ou da ONU, temas penais, etc. Qual era a natureza da petição considerada crucial pela Causa Pública? O reconhecimento do Estado da Palestina. Haveria melhor exemplo acabado da total confusão entre essencial e acessório? É que para nem falar na duvidosa eficácia de tal medida para acabar com a guerra em Gaza, mesmo que contribuísse para tal.. em que é que isso se relaciona ou beneficia os portugueses?!
Marques lá mencionou que a saúde e a habitação eram questões importantes mas que teve a Esquerda a dizer sobre tais questões? Prometeu mais do mesmo. Despejar mais dinheiro em cima de um problema que se agrava, num país praticamente falido não é muito convincente. Afinal, o PS esteve no poder décadas e décadas, gastou rios de dinheiro com o sector social e …os problemas agravaram-se. Algum outro factor tem que estar em jogo, o que nos leva ao tema da imigração e a um grande problema, e um problema estrutural da Esquerda: o seu internacionalismo e obsessão pela igualdade são incompatíveis com políticas sérias de preservação da cultura e defesa das fronteiras nacionais.
Se o objectivo de um projecto político é a igualdade e o universalismo, como defender o dissimilar e particular? Como defender o interesse nacional? Com as vitórias sucessivas na Guerra Cultural e na Revolução de Abril, a Esquerda esgotou o leque de políticas toleráveis para as massas naturalmente conservadoras. Como progressistas, a revolução não pode parar, e passaram então a defender as causas mais extremistas do mercado político, como as minorias sexuais e a sexualidade infantil, ou, artificialmente, recriaram as causas que sabiam ser nostálgicas para a geração de eleitores boomer, como os direitos cívicos e o combate ao racismo. As primeiras foram-se tornando abjectas até para muito do eleitorado de Esquerda, enquanto que as segundas soaram a falso e foram sendo desmascaradas pela internet activista de Direita.
Por outro lado, as Esquerdas portugueses foram incapazes de aprender com a tendência europeia de penalização da Esquerda socialista. Os membros da Causa Pública observaram a catástrofe que se abateu sobre a sociedade francesa, alemã, belga, inglesa, observaram a subida galopante da criminalidade, observaram o assédio industrial às mulheres brancas, observaram o endividamento crónico, observaram a perda de competitividade económica, observaram as derrotas militares e …encolheram os ombros. Que esperavam os associados da Causa Pública que acontecesse em Portugal? Que o povo brando continuasse a recompensar a mediocridade governativa?
Sá Fernandes, numa profunda cegueira ideológica típica da Esquerda revisionista, ainda clama que muito progresso foi conseguido depois dos “48 anos de atraso”. Mas que foi conseguido? O crescimento económico era muito superior no Estado Novo e todos os indicadores de desenvolvimento humano a que a Esquerda alude, atestam que a mudança para melhor se iniciou com a governação salazarista e não com a III República.
Pedroso correctamente identifica que a desindustrialização penalizou a classe média. Segundo o socialista, a infraestrutura foi desenvolvida mas não o tecido produtivo, sem o qual a força laboral acabou imigrando ou no desemprego. Mas Pedroso não compreende que o “tecido produtivo” não é passível de desenvolvimento por investimento estatal. Se fosse, as economias comunistas teriam sido pesos pesados da economia mundial. A produtividade será sempre competência do dinamismo do sector privado, o qual não consegue prosperar num país periférico com elevada carga fiscal, excesso de burocracia e contra a concorrência desleal de economias com muito mais escala. Em Portugal, o dinamismo natural de uma economia em concorrência com algumas das maiores potências industriais, virou-se para a agricultura, a construção civil e o turismo.
Foram políticas de Esquerda que causaram este resultado o qual teria sido parcialmente evitável, se o Portugal ultramarino não tivesse sido criminalmente desbaratado, se a união alfandegária não viesse com excepções fiscais para Luxemburgos ou Irlandas, ou excepções industriais e de défice para Alemanha e França – para nem falar em alargamentos a leste, que em tudo prejudicaram os ‘PIGS’ am matéria de IDE. Foi para isto que serviu o europeísmo esquerdista. Que dizer ainda da ‘democratização da educação’, esbanjando dinheiro público em cursos sem garantias mínimas de retorno? Ou, claro, das externalidades da imigração em massa do 3º mundo, quando a inclusão das mulheres na força laboral e o feminismo, já haviam levado ao fim da família tradicional, à estagnação dos salários e a uma crise de habitação? Hoje são três a competirem pela mesma casa e pelo mesmo emprego: o pai, a mãe e o pseudo refugiado. Alguém se admira com a degradação das condições de vida? O posto laboral já era mal pago depois das deslocalizações mas a obsessão climática e as políticas verdes ainda tornaram a produção ocidental menos competitiva…
Sobretudo, aquilo que a Esquerda não compreende é que o extremismo não começou em 2016, o extremismo político começou em 1968. A reacção ao Maio de 68 é o regresso da moderação, a reacção do sentido de Estado às causas fracturantes, do lar ao poder das ruas, do racional ao irracional, do sangue frio aos ‘gritos de revolta’, da cultura à contra-cultura, da integridade institucional à marcha pelas instituições, da soberania ao supranacionalismo, da ciência à ciência crítica, do civismo à interseccionalidade, da verdade à verdade de cada um, da honestidade ao polígrafo, da nação ao globalismo, do Estado de Direito aos ‘direitos humanos’, da estabilidade à irreverência, da normalidade à anormalidade.