Chefes de governo e/ou de Estado europeus, como Emmanuel Macron, Keir Starmer, Pedro Sánchez e Jonas Gahr Støre, deviam estar mais do que conscientes de que uma Palestina independente (no papel) seria um estado falhado, com disputas sangrentas pelos órgãos de soberania (sobretudo entre a Fatah e o Hamas). Para além disso, um Estado “palestiniano” ficaria sempre sujeito às ingerências de entidades que exercem, de facto, poder político sobre territórios com fronteiras delimitadas, como o Irão e a Turquia, ambos descaradamente promotores do terrorismo. Contudo, o exemplo de Starmer é talvez o mais chocante até agora: o primeiro-ministro britânico afirmou que o Reino Unido iria reconhecer unilateralmente a Palestina como Estado caso Israel não aceitasse um cessar-fogo com o Hamas. Isto aconteceu depois de o Qatar, o Egito, a Arábia Saudita e outros países árabes terem assinado uma declaração conjunta, numa conferência da ONU coorganizada pela França e pela Arábia Saudita, exigindo que o Hamas se desarmasse e renunciasse ao controlo da Faixa de Gaza. O mais assustador é que estas declarações de governantes europeus surgem numa altura em que, muito provavelmente, se avizinha uma transição política: Mahmmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana, já tem 89 anos e só nomeou um sucessor há menos de meio ano — e apenas após intensa pressão internacional. Além disso, a Fatah, partido de Abbas, vive permanentemente receosa de que o Hamas tome o controlo da Cisjordânia, como aconteceu brutalmente em 2007 na Faixa de Gaza. Se, na conferência que assinalará o 80.º aniversário da ONU, em Setembro deste ano, a França, o Reino Unido e outros países europeus reconhecerem a Palestina como estado, então grupos terroristas como o Hamas entenderão que os seus atos delinquentes, violentos e sangrentos são recompensadores. Concordo com o historiador norte-americano Michael Rubin quando este sugere que qualquer grupo separatista, independentemente da sua legitimidade, ficará mais convencido de que as suas reivindicações serão satisfeitas se recorrer ao terrorismo. E os países emergentes e em desenvolvimento serão os que mais sofrerão com a promoção dessa violência.
O fardo dos países emergentes e em desenvolvimento
Vejamos o caso da Índia: a maior parte da sua população é hindu, mas o país é também a casa da terceira maior comunidade muçulmana do mundo (quase 250 milhões de pessoas). É um exemplo evidente do sucesso de atores externos na radicalização e mobilização de parte da população. O incitamento dos muçulmanos indianos (e de outros países, nomeadamente na Ásia) contra Israel e a favor da causa palestiniana está bem documentado. Segundo Abhinav Pandya, fundador do
think tank Usanas Foundation, os protestos da população muçulmana indiana em defesa da Palestina, nos últimos dois anos, foram particularmente intensos e frequentes. Pandya observa que o Partido do Povo Indiano (PPI), que lidera o governo e domina o parlamento, vê Israel como aliado na luta contra o extremismo islâmico. Isso distancia a diplomacia indiana atual de um eventual reconhecimento da Palestina como estado, o que representa uma ruptura com a postura indiana da Guerra Fria. O investigador indiano acrescenta que o trio EUA-Israel-Índia é descrito no jargão muçulmano como “yahood-o-hanood ki sazish”, ou “conspiração judaico-hindu”, e que pelo menos três episódios jurídicos contribuíram especialmente para a radicalização dos muçulmanos indianos:
1. 5 de agosto de 2019 – revogação do estatuto especial da região de Jammu e Caxemira (artigo 370.º da Constituição indiana), que garantia autonomia parcial; 2. Lei de Cidadania de 2019 – atribuição facilitada de cidadania a minorias religiosas não-muçulmanas oriundas do Paquistão, Afeganistão e Bangladesh, medida suspensa após intensos protestos; 3. Registo Nacional de Cidadãos (NRC) – destinado a identificar e deportar imigrantes ilegais no estado de Assam, com intenção de extensão a todo o país; 4. Emendas Waqf (2025) – aumento da supervisão governamental sobre propriedades muçulmanas religiosas e culturais, como mesquitas e cemitérios.
No estado de Madhya Pradesh, governado pelo PPI, manifestantes muçulmanos exibiram em março deste ano faixas como “Morte a Israel, Netanyahu e Trump” e outras mensagens mais brandas, como “Protejam Al-Aqsa” e “Al-Aqsa é o nosso orgulho”. Protestos semelhantes ocorreram no Uttar Pradesh, estado liderado por Yogi Adityanath, monge hindu próximo do PPI, conhecido pelo seu compromisso explícito contra a violência islamista e pela aproximação diplomática a Israel. Os muçulmanos na Índia não estão imunes à influência da Irmandade Muçulmana, Jamaat-e-Islami, Al-Qaeda e Estado Islâmico. Aliás, a disseminação da filial Estado Islâmico-Província de Khorasan tem atraído a juventude muçulmana do norte da Índia. A obra de Pandya
Radicalization in India: An Exploration (2019) descreve a crescente influência do wahhabismo entre os muçulmanos indianos.
Ao alcance dos agitadores: o exemplo da Turquia
O presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, tem conseguido projetar a sua posição sobre Jammu e Caxemira em toda a Ásia. Na 74.ª sessão da Assembleia Geral da ONU (setembro de 2019), pouco após a revogação do artigo 370.º da constituição indiana, Erdoğan descreveu a região como “cercada”, comparando a situação à da Palestina e afirmando que “oito milhões de caxemires” estavam presos “numa prisão a céu aberto”. Na Organização para a Cooperação Islâmica (OCI), a Turquia tem apoiado sistematicamente o Paquistão, defendendo resoluções contra a Índia. O
think tank turco GASAM, fundado por Ali Sahin (islamista paquistanês e atual vice-ministro turco para Assuntos Europeus), dedica-se à propaganda da ideia de renascimento do Califado Otomano, organizando eventos com clérigos, políticos e líderes muçulmanos. Na Índia, o governo turco promove contatos com clérigos como Sheikh Salman Nadwi (que já prometeu recrutar 500 mil muçulmanos indianos para a jihad e chegou a defender Abu Bakr al-Baghdadi) e Zakir Naik (pregador wahhabita ligado a atentados em Dhaka, refugiado na Malásia, com mandato de captura emitido pela Índia). Além disso, Ancara tem fornecido fundos e armas ao Jamaat-e-Islami, movimento islamista activo no Paquistão, Bangladesh, Afeganistão e Índia. É pertinente recordar que o braço do Jamaat-e-Islami no Bangladesh, partido político banido entre 2014 e 2025, voltou a ser autorizado a participar em eleições este ano, por decisão do Supremo Tribunal desse país. Para além dessa legitimação política, o movimento não deverá hesitar em chorar lágrimas de alegria pelas conquistas de outros grupos terroristas como o Hamas.
Notas finais
O reconhecimento da Palestina como estado, sem garantias mínimas de renúncia ao terrorismo e de estabilidade política, não é nenhum avanço diplomático, mas sim uma tradução política da legitimação da violência. Para além disso, dá munições ideológicas a grupos e a estados mais ou menos abertamente dedicados à disseminação do terror, como é evidente no Médio Oriente e no Sul da Ásia.