Estratégias Partidárias para as Europeias


Por Miguel Nunes Silva

No Folha Nacional

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As eleições para o Parlamento Europeu (PE) aproximam-se e os cálculos estão a começar a ser feitos pelos partidos nacionais.

Para a Esquerda, as eleições europeias têm um objectivo simples: manter a maioria. Manter a maioria provaria que o governo não está descredibilizado e que Portugal se mantém como um fiável fornecedor de deputados de socialistas e marxistas para Bruxelas. A única nuance está em se o Bloco de Esquerda consegue uma maior proporção de eurodeputados, assim conseguindo ter maior influência relativamente ao PS. Esta é uma questão muito pertinente, prevendo-se que o PS seja particularmente penalizado e perca vários dos 9 mandatos que mantém. O Partido Socialista poderá estar a enfrentar um resultado historicamente baixo ao nível dos 7 mandatos de 2009 ou dos 6 de 1987. Se assim for e o Bloco conseguir 3 ou 4 mandatos, o partido de Mariana Mortágua teria relativamente maior influência na família europeia da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde (GUE/NGL) do que o PS na Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas (S&D). Por fim fica ainda por saber se o PAN e o LIVRE conseguem eleger eurodeputado, capitalizando a desgraça dos socialistas.

Para a Direita, por outro lado, os cálculos são francamente mais complexos.

O CDS tem a missão primordial de realizar o milagre de manter o seu mandato único. Apesar de prestações acima da média em europeias, este é um objectivo difícil, posto que o PSD será para muitos a alternativa ao PS. Para além do desalento que a extinção do grupo parlamentar provocou, o CDS ainda é liderado por uma clique que trata o CHEGA como principal adversário, não se conseguindo descolar ideologicamente do PSD. Os tradicionais eleitores do CDS não vislumbram diferenciação e os independentes nem atenção prestarão aos centristas.

A Iniciativa Liberal terá pela frente o desafio alcançável de eleger o primeiro eurodeputado disputando o eleitorado europeísta do PSD. Os liberais bater-se-ão para conquistar mais do que um mandato e ganhar peso na família Renovar. O caminho está facilitado à IL mas há um pequeno espectro no horizonte: consoante os resultados no PE, o grupo Renovar poderá alinhar com uma aliança do centrão entre Partido Popular Europeu (PPE) e S&D, ou até mesmo com uma aliança de esquerdas, para impedir a inclusão da direita conservadora numa solução governativa do parlamento. Se a família europeia da IL resvalar ainda mais para o marxismo, a credibilidade da IL e a sua postura em debates nacionais ficará também debilitada. É uma preocupação a prazo mas uma que, sobretudo depois da última convenção, cada vez mais causa saídas de liberais clássicos do partido. Existe uma maioria …pós-modernista dentro do partido mas será que o eleitorado que a IL tenta conquistar ao PSD é igualmente pós-moderno?…

O PSD tem, desde logo, a missão de tentar superar o resultado socialista. Isto implicaria adicionar aos seus 6 mandatos mais 2 ou 3. No entanto, este objectivo está ameaçado pelo crescimento do CHEGA, o desaparecimento do CDS e a rivalidade da IL. Neste momento a IL e o PSD funcionam como vasos comunicantes, um subindo quando o outro desce e vice-versa. Por outro lado, as tendências à Direita com o CDS e o CH, negam ao PSD os votos dos eurocépticos que costumavam alinhar com os centristas. O voto euro-federalista à Direita estará assim dividido entre o PSD e a IL. Resumindo, o PSD deixa de ter acesso ao voto anti-Bruxelas e passa a ter que competir com a IL pelo voto federalista. Subitamente, os cálculos de ultrapassagem do PS tornam-se mais difíceis, o que explica a relutância de Luís Montenegro em classificar como derrota uma potencial não ultrapassagem do PS pelo PSD. Para piorar o problema, o PSD tem apontado as suas baterias ao CH e pouco à IL, o que abre o seu flanco federalista aos jovens irreverantes da Iniciativa. Por fim, mesmo que o PSD ganhe ao PS, a derrota das Esquerdas apenas estaria completa com 11 mandatos para a Direita e uma maioria clara no grupo de Portugal no PE. Para ser claro, os 11 mandatos teriam que estar distribuídos entre o PSD e o CH, pois a IL alinha como o grupo Renovar, que estando ao centro, tão depressa alinha com as Esquerdas como com a família PPE do PSD.

Os cálculos eleitorais do CHEGA são delicados. Não tendo nenhum eurodeputado, qualquer mandato é uma vitória para o partido de André Ventura mas ficar atrás da IL ou do BE seria visto como um embaraço. Por conseguinte, o CH deve apontar aos 2 ou 3 mandatos, no mínimo. As contas do novo partido são facilitadas pelo monopólio de que gozará como única força partidária eurocéptica, como principal força da oposição desde a maioria absoluta do PS, contando ainda com o desgaste do PS perante a opinião pública e com a precariedade laboral do país, à medida que a inflação avança e a estagnação económica se faz sentir. O grupo Identidade e Democracia, é conhecido por se manter e ser mantido à margem dos acordos parlamentares no PE mas a possibilidade de ser fiel da balança mudará muitas atitudes.

Nos últimos anos, o PE tem funcionado com um acordo entre os grupos S&D, Renovar e PPE. Isto explica, por exemplo, as políticas irresponsáveis de expansão monetária que têm dado azo à inflação, ou a complacência perante a imigração ilegal em massa do mundo em desenvolvimento. Prevê-se, no entanto, que tanto a Aliança dos Conservadores e Reformistas Europeus (ECR) como o grupo Identidade e Democracia (ID) do qual faz parte o CH, cresçam em 2024, possibilitando em teoria uma aliança das Direitas no PE. Concretamente, está na mesa um potencial acordo parlamentar entre o PPE, o ECR e ou o ID, ou o Renovar.

A experiência de Espanha deveria pesar nas consciências dos estrategas de Luís Montenegro pois tanto Rui Rio em 2022 como Feijóo em 2023, avançaram autisticamente sem alianças à sua direita e ‘morreram na praia’. A cúpula do PSD apenas pode estar ciente de que o futuro político em Portugal será multipartidário. Perante esta realidade, avançar isoladamente é a receita para o desastre e um sinal de que o PSD prefere que a Esquerda continue a governar. Para além de incluírem o CDS nas suas listas, o PSD poderia e deveria aprender a lição do PP em Espanha, e coordenar as suas candidaturas com o CHEGA.

No caso específico das europeias, o PSD teria a ganhar em focar a sua retórica nos seus rivais directos da IL, e preparar-se para cooperar com os seus futuros colegas do CH no PE – muitos dos quais, aliás, oriundos do PSD e do CDS – que agregam votos de um eleitorado que muito dificilmente voltará ao PSD.

Se os sociais-democratas repetirem a receita dos populares em Espanha, diabolizando a sua Direita e sendo intimidados pelos media de extrema-esquerda a seguirem a narrativa do sistema, arriscam-se a ter os mesmos resultados: uma IL forte fazendo frente ao PSD no PE e na AR, e um CHEGA na oposição mas crescendo gradualmente com a insatisfação generalizada, causada pela continuada governação das esquerdas.

Actualmente, impera no PSD a estratégia de chantagem ao eleitorado do CH, apostando numa coerção do eleitorado de Direita, tentando conduzi-lo ao voto útil: ‘ou nós, ou a Esquerda’. Esta estratégia é passível de sucesso em eleitorado volátil mas não em pessoas que votam contra o sistema. Em Espanha, tal estratégia logrou roubar ao VOX uns meros 3% mas o núcleo duro do partido manteve-se fiel. O mesmo é previsível em Portugal aonde o PSD é ainda mais conotado com o centro-esquerda do que a liderança de Feijóo do outro lado da fronteira.

Por todo o continente europeu, os partidos da nova Direita são progressiva e democraticamente incluídos em soluções governativas. Quanto mais tempo o PSD resistir em Portugal, mais arrisca a sua credibilidade ideológica e a sua sobrevivência eleitoral a longo-prazo.


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